A pergunta pode até parecer estranha, mas a prática demonstra que a reflexão é válida, atual e muito necessária.

Somos seres desejantes e faz parte de nossa natureza sonhar, fazer planos, traçar metas, perseguir objetivos, ansiar por mudanças.

Um novo bem material, um novo endereço, um novo namorado, o fim de um relacionamento, um outro emprego, uma promoção, uma nova carreira, aquela viagem, o casamento, um filho, uma medalha, a superação de um vício ou mudanças de comportamento, por exemplo, são alçados ao topo de nossa pilha de necessidades e se tornam o centro de nossos mais profundos desejos, sobre os quais depositamos a esperança da felicidade e pelos quais consumimos horas de sono e muita energia mental.

No entanto, sair do mundo mental para o mundo prático exige certas habilidades e competências que nem sempre costumamos cultivar.

É exatamente neste ponto que um bom coach pode contribuir, auxiliando a pessoa a organizar suas ideias, definir o foco, descobrir possibilidades, agir de forma planejada, remover eventuais obstáculos e chegar a seu objetivo.

As tais “perguntas poderosas” que o coach faz ao coachee (aquele que passa pelo processo de coaching) são assim chamadas porque tem o poder de provocar insights, reorganizar o pensamento, aumentar a automotivação, empoderar o coachee, e, acima de tudo, arrancá-lo da sua zona de conforto.

Sim, pois a dinâmica dos encontros de coaching leva o coachee a firmar compromissos consigo mesmo, assumindo inteira responsabilidade pelo que lhe diz respeito em relação ao futuro desejado.

É um processo que vai aos detalhes, exige que a meta seja exatamente definida, expõe os diversos ângulos da questão, explora as múltiplas alternativas, leva o coachee a assumir o protagonismo, tomando as rédeas da própria vida e afastando desculpismos e procrastinação.

E é justamente por isso que não raras vezes o coachee descobre que nem sempre quer de fato aquilo que dizia desejar.

Isso é bom ou ruim? – perguntará o leitor.

É ótimo! Afinal, a verdade liberta e, livres, podemos redefinir nossos objetivos – se for este o caso.

Mas, por que isso acontece?

Não há um motivo único. Às vezes a pessoa descobre que aquele não era um desejo seu, mas de alguém importante e próximo que a fez acreditar que fosse. Em outras vezes, percebe que não estava sendo autêntica, mas apenas seguindo a onda, a modinha do momento, por insegurança, necessidade de aprovação ou falta de autoconhecimento.

Pode ser que seu desejo fosse muito vago e impreciso, não resistindo ao exercício de ser melhor definido, momento em que a pessoa compreende que não havia nada realmente consistente ali, oportunidade de ouro para rever seus objetivos.

Ou que fosse uma meta inviável, irreal, definitivamente acima de suas possibilidades.

Mas o que ocorre com mais frequência, em virtude do caráter eminentemente pragmático do processo de coaching, é a constatação de que a pessoa não está disposta a pagar o preço para sair do ponto A e chegar ao ponto B.

E o maior preço é justamente sair da sua zona de conforto.

Reconhecer que é a grande responsável pelo seu destino. Que reclama da situação atual, mas nem sempre quer de fato sair dela, pois se acomodou a um ou outro ganho secundário. Admitir que muitas vezes arruma desculpas e adia providências, que se esconde atrás do papel de vítima, que não se dedica suficientemente, que não faz tudo o que poderia fazer, que não tem todas as conversas cruciais que precisa ter, que não sabe estabelecer limites, que evita tomar as decisões difíceis, que não quer desagradar ninguém, que não cumpre o que planeja. Reconhecer, enfim, que está em pleno processo de autossabotagem.

E se este encontro consigo mesmo pode ser muito desconfortável de início, a boa notícia é que ele, se bem conduzido, pode afastar as sombras do autoengano.

Afinal, não chegaremos a nenhum objetivo consistente sem encarar nossas verdades.

Esta é uma viagem pelos caminhos do autoconhecimento e da autenticidade.

Pois, como declara a consultora americana Margaret Young, você precisa primeiro ser quem realmente é, então fazer aquilo que realmente tem que fazer, para ter o que deseja.