Condições econômicas sociais precárias treinam homens e mulheres (ou os fazem aprender pelo caminho mais difícil) a perceber o mundo como um contêiner cheio de objetos descartáveis, objetos para uma só utilização; o mundo inteiro – inclusive outros seres humanos. Em outras palavras, laços e parcerias tendem a ser vistos e tratados como coisas destinadas a serem consumidas, e não produzidas; estão sujeitas aos mesmos critérios de avaliação de todos os outros objetos de consumo. (Zygmunt Bauman – Modernidade Líquida)

Cresci na companhia inesquecível de duas irmãs mais novas do que eu, com as quais mantenho sinceros laços de afeto até hoje.

Em nossa infância éramos companheiros, brincávamos juntos, cantávamos juntos, dividíamos o mesmo quarto e muitas aventuras.

Lembro-me do dia em que a mais velha “ficou mocinha”, em plena praia, assustada com o próprio corpo que se transformava enquanto ela se tornava mulher.

Ainda jovem, vi uma delas tornar-se mãe inesperadamente, enfrentando a barra de criar sua filha sem o apoio do pai, varar madrugadas entre os livros e o berço, lutando contra dificuldades psicológicas, estruturais e financeiras até conseguir formar-se médica, para orgulho de nossos pais, com quem ela sempre pôde contar.

E assim recebemos mais uma mulher em casa, esta sobrinha que se tornou filha do coração, que muitas noites dormiu em meu colo para que sua mãe pudesse descansar um pouco.

E por falar em mãe, ainda havia nossa mãe, nossa Conceição, nossa heroína. Crescemos ao som de suas canções entoadas enquanto cuidava da roupa, da comida, da casa e de nós. Em inúmeras tardes nós brincávamos à sua volta enquanto ela costurava na velha máquina que só ganhou um motor elétrico quando já éramos quase adultos.

Mesmo sem estudos, ela monitorava nossas lições de casa e nos dava ditados para exercitar. Enfrentou muitas dificuldades e venceu seus próprios limites com muita dignidade. Foi autodidata, conseguiu se aposentar como costureira, ajudou a cuidar dos netos, continua sendo um importante elo de integração familiar e ainda realiza trabalhos voluntários.

Nesta base familiar, em meu mundo mental, aprendi a olhar as mulheres como pessoas, considerar seus sentimentos, perceber suas emoções, entender os seus ritmos – admirá-las e respeitá-las.

E para isso tive um grande professor: meu pai, que mesmo educado com uma dose de machismo muito própria da sua época, soube me ensinar a ser melhor do que os modelos herdados, preparando-me para uma convivência de amor e de profundo respeito a todas as mulheres que passariam pela minha vida – professoras, colegas, alunas, amigas e companheiras – às quais devo também grande parte deste aprendizado.

Foi inspirado por ele que orientei meus dois meninos quando eles começaram a namorar. E a melhor forma que encontrei ficou resumida neste “mandamento”: respeitem as meninas como vocês desejam que sua irmã seja respeitada pelos outros meninos.

Sim, pois também sou pai de uma menina, que já se fez mulher. E neste amor sem precedentes eu busco reforçar minhas posturas, homenageando em cada mulher que encontro as minhas Tânia e Iracema, a nossa Conceição, a nossa Gabi, a minha Clara, a nossa Helô, e todas as Carolinas, Alvinas e outros anjos que já se foram.

Estou convencido que cabe à nossa sociedade realizar um imenso e contínuo esforço por criar condições de vida e de florescimento mais justas para nossas mulheres, revendo seus paradigmas que ainda carregam atrasos históricos, condicionamentos e atavismos inaceitáveis, reconhecendo seu valor inestimável em todas as esferas da ação humana – em casa, na política, na cultura, no mercado de trabalho, na vida – e “descoisificando” a figura feminina.

Mas insisto em considerar que, além da escola, é acima de tudo na família que serão construídos os alicerces destes novos paradigmas de justiça e equidade, na base do Amor e do diálogo e, acima de tudo, do exemplo – especialmente dos homens, para que estes não acabem inadvertidamente contribuindo para que a mulher seja vista como uma serviçal ou um produto para consumo no modelo fast-food, desconsiderada em seus anseios e tratada como um ser de menor importância.

Nós podemos e precisamos ser bem melhores do que isso.

E para terminar, minha mais sincera e respeitosa reverência às mulheres: muito obrigado!