Qual o sentido de se escrever mais um artigo sobre o Setembro Amarelo e seu apelo de valorização da vida e prevenção do suicídio?

Viktor Frankl, o célebre médico psiquiatra austríaco fundador da logoterapia – a terapia centrada no sentido, definia o homem como um ser que sempre aponta para além de si mesmo, em busca permanente de sentido.

Em 1930, com apenas 25 anos de idade, criou o Centro de Assistência a Jovens Suicidas. De 1933 a 1937 foi chefe do Pavilhão Feminino de Suicidas, no hospital psiquiátrico de Viena.

O que ele chamou de síndrome da falta de sentido, marcada pelo sentimento de angústia e de profundo vazio existencial, inicialmente foi considerada um efeito colateral do pós-guerra. No entanto, tornou-se ainda mais presente e acentuada nos dias atuais, como uma espécie de ferida aberta em nossa “sociedade do espetáculo”, como diria o filósofo Guy Debord, e em tempos de “mundo líquido”, como propunha o sociólogo e também filósofo Zygmunt Bauman.

E um de seus mais tristes aspectos é que o suicídio entre jovens vem aumentando de forma impressionante no mundo todo, enquanto cresce também entre as pessoas da terceira idade, inclusive no Brasil.

Em linhas gerais, nós nos afastamos da natureza e de seus ciclos reguladores; criamos uma sociedade toda baseada no poder de consumo e no prazer imediato como valores máximos; imprimimos um ritmo insano às nossas atividades; cultivamos relacionamentos fluidos e superficiais; perdemos a conexão com nossos valores e nos prendemos apenas ao que é imediato, visível, concreto, pragmático, de forma utilitarista; afastamo-nos de nossa essência e daquilo que Frankl chama de nossa dimensão noética ou espiritual.

Sim, Viktor Frankl, diria que estamos gravitando exclusivamente em nossa dimensão psicobiosocial, lutando para sobreviver, sentir o máximo de prazer, administrar a luta entre a razão e o instinto, obter poder e sucesso como sinônimos de uma felicidade quase sempre ameaçada pelas circunstâncias, aprisionados num ciclo pequeno, muito aquém de nossas reais possibilidades e do florescimento preconizado por Martin Seligman.

Como seres humanos, a vontade de prazer e a vontade de poder nos impulsionam para a luta comum, porém, a vontade de sentido impõe-se como a motivação primária em nossa vida. Uma vez negligenciada, pode nos lançar em uma angustiante frustração existencial, capaz de gerar neuroses profundas.

Prevenir o suicídio é uma missão com múltiplos caminhos e negar a complexidade do momento atual não deve ser um deles. Estamos sim, atravessando momentos complicados, sujeitos a um modelo de sociedade que já não nos serve, enfrentando problemas de difícil e demorada solução, sentindo dores e angústias para as quais não encontraremos respostas nem capacidade de superação sem os recursos de nossa dimensão noética.

É pela nossa dimensão noética que nos tornamos capazes de transcender nossas limitações biológicas, nossos condicionamentos psicológicos e nossos horizontes sociais, dirigindo-nos a razões fora de nós mesmos para encontrar o sentido em tudo o que vivemos, seja qual for a situação, inclusive naquelas em que já não existe a possibilidade de mudar o contexto, restando-nos apenas a liberdade última: a de escolher a forma como nos posicionaremos e como reagiremos ao que nos acontece.

Em outras palavras, nesta linha de ação, prevenir o suicídio não é necessariamente evitar que pessoas sofram, mas acionar em nós e ajudar que elas acionem também a sua dimensão noética ou espiritual (sem negligenciar as psicoterapias e outros recursos ao nosso alcance).

Mas, como?

É estarmos atentos quando períodos de tristeza se prolongarem mais do que o normal naqueles que convivem conosco, por exemplo. Vemos o suicídio como um ato extremo, mas deveríamos pensar nele como um processo que se desenha no transcorrer do tempo, de forma mais ou menos silenciosa, mas quase sempre emitindo alguns sinais.

É acolhermos o outro, com extremo respeito à sua singularidade. É ouvirmos as pessoas de forma empática e realmente interessada. É promovermos momentos de encontro real, sem outro interesse além da comunhão, em que possamos nos conectar verdadeiramente uns com os outros e onde cada um possa reconectar-se com sua essência, reconciliar-se com a natureza, construir relacionamentos positivos, redescobrir seus valores, cultivar seus talentos e virtudes, engajar-se em causas maiores do que suas próprias causas, perceber a sua conexão com o todo e com algo maior do que nós, o que nos torna solidariamente interconectados.

Valorizar a vida e prevenir o suicídio é um projeto de amor que se executa no dia a dia.

Mais amor, mais interesse legítimo, mais silêncio, mais escuta, mais ritmos naturais, mais comunhão, mais espiritualidade.

E que setembro nos desvende o sentido maior de nossas vidas: florescermos juntos.