Durante alguns anos, há algumas décadas, eu tive um sonho recorrente: sonhava que caminhava por uma planície e, por um impulso interior, punha-me a correr e correr, até que começasse a planar, voando a poucos metros do chão. Nestes meus sonhos só uma coisa interrompia o voo: a dúvida acerca da minha capacidade de me manter voando. Se eu titubeasse, era vencido pela força da gravidade.

Estes sonhos repetidos me marcaram tanto que, até hoje, quando caminho na beira do mar, naquela faixa de areia umedecida e compactada pelos avanços da maré, tenho a nítida e visceral impressão de que, se eu correr o suficiente, serei capaz de levantar voo, o que me dá uma sensação a um só tempo libertadora e frustrante.

A aviação é uma de minhas paixões. O voo dos pássaros e dos aviões me encanta. Quando criança, fazia dezenas de aviõezinhos de papel num só dia, testando diferentes formatos de bico, asa, comprimento, procurando o modelo que mais se sustentasse no ar. Empinava papagaio (ou pipa), mas nunca gostei das disputas com cerol para ver quem derrubava quem primeiro. Meu prazer era ver a estrutura de varetas de bambu e papel de seda desafiando as alturas por horas, sentindo toda a vibração e a força do vento na linha presa à lata de óleo vazia em minhas mãos, imaginando como seria bom também poder voar e olhar o mundo de mais alto.

Lembrei de tudo isso ao retomar um texto do médico e psicanalista vienense, Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, e criador da Logoterapia.

Em uma de suas metáforas, ao comparar o ser humano com um avião, Frankl argumenta que o avião não deixa de ser um avião ainda que permaneça apenas se movendo continuamente pelo solo. Mas o fato de ser um avião, diz ele, só é demonstrável no momento em que ele se eleva pelos ares.

Para Viktor Frankl, de forma análoga, o homem começa a comportar-se como homem somente quando se torna capaz de sair do plano limitado dos condicionamentos biopsicossociais para ir ao encontro de si mesmo, num processo de autotranscendência, valendo-se de sua constituição noética ou espiritual.

Costumo valer-me desta imagem quando falo sobre desenvolvimento do potencial humano, em palestras e treinamentos, provocando o público, os treinandos ou os alunos com estas reflexões: considerando nossa constituição multidimensional – física, mental, emocional e espiritual – como estão aplicadas nossas potencialidades? Somos aviões munidos da mais alta tecnologia, com painéis ultramodernos, sensores e indicadores eletrônicos precisos, radares, GPS, inteligência artificial, presos ao solo, apenas taxiando por ruas e avenidas, esbarrando nossas asas em postes e edifícios como um elefante numa loja de cristais?

O que nos tem impedido de florescer, desenvolver nossos talentos e inteligências, fortalecer nosso caráter, conquistar o equilíbrio, alcançar a integração com o outro, estar em harmonia com as leis da natureza, contribuir positivamente com algo além de nós e ser tudo o que podemos ser?

Que crenças, condicionamentos, contextos e manifestações reducionistas do ego nos mantém presos ao solo?

E torno ao sentimento que me visita quando a brisa que sopra do mar parece me convidar a experimentar o voo que só havia nos meus sonhos.

E volto a me emocionar pensando: nós podemos ser e fazer mais e melhor do que temos sido e feito até agora.

A Vida reclama uma nova postura. É hora de decolar.

Faz sentido pra você?