Gratidão é destas coisas que a gente considera um sentimento e, portanto, sente ou não sente.

Mas as pesquisas que fundamentam estudos profundos como os de Mihaly Csikszentmihalyi, Martin Seligman, Brené Brown, Shaw Achor, Sonja Lyubomirsky e do brasileiro Helder Kamei, por exemplo, vem demonstrando que a gratidão pode ser cultivada, ampliada e desenvolvida pela prática.

Não só pode como deve.

Está provado que as pessoas gratas são mais alegres e não o contrário. É justamente o fato de se abrirem à percepção das coisas boas desta vida que faz delas pessoas mais alegres e mais felizes.

Mas nem todos conseguem. Há crenças e paradigmas que se opõem à prática da gratidão e nos impedem de viver a Vida Plena.

Crenças que sufocam a gratidão

Na civilização do espetáculo, como diria o escritor Mario Vargas Llosa, valorizamos e desejamos o extraordinário, fazemos pouco caso das coisas simples, de homens e mulheres comuns, dos momentos singelos e das pequenas alegrias, que acabamos considerando uma espécie de “felicidade de segunda linha”, se é que isso é possível.

Deixamos de ter olhos de ver motivos para nos sentirmos gratos e geralmente só nos damos conta do seu real valor quando os perdemos.

Já aconteceu com você? Tenho quase certeza que sim. E arrisco dizer que foi dolorido.

Outro paradigma que nos impede de viver a gratidão é o medo de perder.

Desejamos uma vida plenamente feliz, ansiamos pelo “ viveram felizes para sempre”, sonhando com uma vida que transcorra linearmente, sem sobressaltos, sem perdas, sem equívocos, sem conflitos e, naquilo que consideramos mais caro para nós, sem mudanças.

Mas a vida é probabilística e cíclica. Não há garantias totais nem certezas absolutas. O mundo é impermanente e, por mais que relutemos, sabemos muito bem disso.

E aí está a outra armadilha: de tanto temer a perda daquilo que hoje me faz feliz, eu não me permito senti-lo nem vivê-lo plenamente.

Alegria de pobre dura pouco, é bom demais pra ser verdade, quando a esmola é demais o santo desconfia, é muita areia pro meu caminhãozinho – são algumas formas de expressar esta crença.

E então, em momentos em que eu poderia ser grato e me sentir alegre por isso, escolho me angustiar pelo medo do fim, me preocupar pelo que poderá acontecer, me reprimir para não sofrer depois.

Para ilustrar o terceiro aspecto desta breve análise, vamos recorrer a Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), em seu famoso Poema em Linha Reta:

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
(…)
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…”

Acreditar que não somos bons o bastante é outra crença muito forte, às vezes reforçada até mesmo pelos que nos amam, infelizmente.

Esta é uma conversa que costumo ter com colaboradores e voluntários que por vezes perdem a noção de sua própria importância: você tem experiências pessoais, vivências que compõem a sua singularidade e que são de valor inestimável, pois haverá momentos e situações em que você e só você poderá alcançar o entendimento maior de um problema ou de um drama humano, dizer a palavra que sensibilizará, praticar o gesto que fará toda a diferença, contribuindo para melhorar a vida das pessoas.

Somos, sim, falhos, vulneráveis, imperfeitos, às vezes ridículos e inseguros – somos humanos! E por isso mesmo somos maravilhosos.

As pessoas que escolheram viver a Vida Plena assumem a sua história, abandonam a comparação, valorizam a sua singularidade, investem em seus talentos, identificam e cultivam suas forças e virtudes. Aceitam-se como são, praticam o amor próprio, vivem e mostram o seu EU real, pois é só desta forma que experimentam a sensação de verdadeiro pertencimento, um dos ingredientes da felicidade e do florescimento.

Exercite a Gratidão – Pratique Gratidão

Há várias formas de praticarmos a gratidão e cada um deve encontrar a sua. Em nossos treinamentos ensinamos algumas delas, inspiradas na Psicologia Positiva e em fontes diversas.

Em essência, trata-se de ampliar nossa percepção para as pequenas bênçãos da vida, para os detalhes que descuidadamente temos desprezado, alegrias simples, momentos de ternura, presenças amadas, lições aprendidas mesmo na dificuldade, nossos afetos, pessoas que nos ajudaram, nosso corpo – esta máquina maravilhosa, os bens da terra, o raio de sol, sons, cheiros, sabores, texturas, canções, sentimentos, experiências e infinitos detalhes que devemos reaprender a saborear e a agradecer.

Por uma vida mais alegre e plena, sejamos nós mesmos e pratiquemos a gratidão.

E para você que me acompanha, obrigado! Ou, como se diz hoje em dia, gratidão!