Participei de muitas bancas de avaliação de candidatos em processos seletivos e não poucas vezes ouvi alguns deles declararem que seu maior defeito era serem perfeccionistas, uma espécie de defeito politicamente correto que parecia querer reforçar sua imagem de profissional meticuloso, exigente e zeloso.

Mas a verdade é que o perfeccionismo pode mesmo se tornar um problema de graves consequências na medida em que vai se transformando em uma crença autodestrutiva e limitadora.

Isso acontece quando, movidos pelo perfeccionismo, centramos todos os esforços na tentativa de conquistar aprovação, elogios e aceitação, impondo-nos condições rigorosas para nos sentirmos merecedores de afeto e pertencimento: eu passo a crer que o que sou não importa, pois o que vale é (só) o que realizo com perfeição.

Ou ainda pior: o que vale é (só) o que realizo de tal forma que os outros avaliem como tendo sido realizado com perfeição – uma verdadeira insanidade, uma vez que nosso sentimento de autovalor passa então a depender da percepção dos outros, medida absolutamente relativa e sujeita aos mais diversos e contaminados filtros pessoais de nossos “juízes”.

E assim, sermos criticados nos faz sentir culpa ou vergonha desproporcionais, reforçando a ideia de que não somos bons o bastante e de que somos indignos de amor e respeito, o que nos causa tensão, irritabilidade e sentimentos depressivos.

Para o perfeccionista seu valor pessoal está sempre em jogo. O medo de errar, fracassar ou desapontar as outras pessoas acaba paralisando o perfeccionista, que passa a não arriscar, o que geralmente equivale a prender-se a modelos já conhecidos, fixar-se em sua zona de conforto e assumir posturas inflexíveis, afetando sua capacidade de inovar e muitas vezes bloqueando sua criatividade – o que pode ser desastroso para pessoas e empresas.

É imperioso que aprendamos a lidar com nossas vulnerabilidades, reconhecendo e aceitando nossas imperfeições e modificando nossos diálogos internos.

Em vez de nos torturarmos e de nos criticarmos tanto pelo que os outros vão pensar, precisamos ser mais compreensivos conosco, conscientes de que todos falhamos, nãos nos permitindo sufocar pela negatividade, indagando-nos, isso sim, sobre como podemos melhorar a cada dia, a cada experiência, a cada novo aprendizado.

Segundo a pesquisadora americana Brené Brown, “é no processo de aceitar nossas imperfeições que descobrimos nossos verdadeiros dons: coragem, compaixão e conexão”.

Concordo plenamente! É preciso verdadeira coragem para admitir e administrar nossas fragilidades, seguindo em frente apesar delas.

No desejo sincero de sermos melhores, é indispensável que tenhamos autocompaixão para que os naturais tropeços do caminho não nos paralisem.

Este processo nos levará naturalmente a cultivar também a compaixão pelos outros, na proporção em que formos nos reconhecendo como parte desta mesma imensa, solidária e imperfeita família humana.

Neste movimento interno, com reflexos em nosso mundo externo, construiremos novas pontes, tecendo conexões verdadeiras, com impactos positivos em nosso sentimento de pertencimento.

Só assim alcançaremos de fato a nossa melhor versão, numa espiral evolutiva contínua.

Não se trata, pois, de acomodação à mediocridade. Trata-se de não gastarmos nossas energias no esforço inútil e insano de obter a aprovação de todos, aplicando-as ao esforço saudável do aperfeiçoamento pessoal consciente e maduro.

Aqueles que procuram viver a Vida Plena seguem fazendo o melhor que podem e não deixam que oportunidades se percam apenas por medo de realizar o bom enquanto ainda não conseguem produzir o ótimo.

E você, como tem se conduzido?