Em nossas intervenções em empresas, organizações não governamentais, escolas e até mesmo em núcleos familiares, identificamos quase sempre uma enorme dificuldade de diálogo entre os diversos agentes daquelas estruturas.
E quando declaramos aos envolvidos que o destino da organização, do time ou da família dependerá da sua capacidade de reestabelecer o diálogo, é comum recebermos manifestações de profunda descrença no diálogo como via de construção de futuros desejados.

Esta atitude mental é compreensível, na medida em que se fundamenta em experiências malsucedidas em que o suposto diálogo mais parecia um monólogo e foi utilizado para impor ideias, dissimular intenções inconfessáveis, promover discussões infrutíferas, reforçar jogos de poder e coisas do tipo.

Neste contexto, quando a crise se instala e entrevistamos os gestores e colaboradores de uma empresa, os participantes de um projeto ou os membros de uma família, eles frequentemente declaram que conversar não adianta nada.

E provavelmente não adianta mesmo! Pelo menos não da forma como a maioria das pessoas e organizações conduzem o diálogo.

O primeiro passo é reconhecer a influência de nossos pressupostos.

Acontece que não há substituto para o diálogo.

Se quisermos compartilhar significados coerentes, construir sentidos coletivos, encontrar soluções efetivas e sustentáveis, produzir sinergia, obter engajamento verdadeiro, aumentar a eficácia de nossos times e semear a paz em nossa sociedade, não há outra via – temos de aprender a conversar de verdade.

Todos nós entramos num diálogo carregando o que David Bohm, físico e pensador americano, chama de nossos pressupostos – nossos significados e interesses pessoais, interesses de nossos grupos, modelos sedimentados através da nossa história particular, aos quais nos agarramos como se fossem parte de nosso ser. Pressupostos que defendemos com forte carga emocional, como se estivéssemos sendo pessoalmente atacados quando eles são contestados.

São paradigmas e dogmas pessoais com os quais nos identificamos visceralmente, elevando-os à categoria de condição inegociável e praticamente inquestionável.

Ora, quando nossos pressupostos são conflitantes – e quase sempre são conflitantes em algum nível, é fácil perceber que, se nos agarrarmos radicalmente a eles, não haverá caminho possível para o diálogo.
Neste cenário, o mais provável é que não haja acordo ou que “vença” o mais forte em termos físicos, financeiros, políticos, etc., que fará valer sua supremacia numa relação perde – ganha, quando o diálogo deveria ser uma dinâmica do tipo ganha – ganha.

O diálogo segundo David Bohm

Em seu livro Diálogo, Comunicação e Redes de Convivência, David Bohm nos traz uma ideia de diálogo muito diferente do senso comum.

No exercício do diálogo proposto por ele, o objetivo não é vencer. O diálogo não é contra o outro, mas com o outro – o que é muito diferente. Nele, os participantes se dispõem a suspender seus pressupostos por um tempo e, mesmo sem abdicar de suas opiniões, resolvem compartilhar significados, ampliar sua consciência coletiva e encontrar meios inteligente de fazer o que for preciso, pensando juntos.

No diálogo de Bohm, quando eu digo algo pensando em um significado e meus interlocutores traduzem o que eu digo atribuindo-lhe outros significados, em vez de me considerar ofendido ou derrotado, percebo que todos ganhamos ao ampliarmos a noção dos significados existentes e a compreensão de como se dá o processo criativo mental, uma espécie de software que “roda” por trás da construção do pensamento coletivo que, em última análise, é a matriz geradora dos conflitos.

Entender como o nosso pensamento e nossas próprias ações contribuem para que os problemas ocorram é compreender que na verdade nós é que criamos coletivamente modelos que no início pareciam ser causados puramente por forças externas a nós. Modelos que são incorporados tacitamente, que são transmitidos pelas estruturas sócio-culturais e que, ao se transformarem em pressupostos, paradigmas, dogmas ou crenças, tendemos a defender e perpetuar, mesmo inconscientemente, incapazes de admitir que sejam minimamente questionados, transformando o diálogo em mera disputa de poder de convencimento.

Da raiva e do medo para a criatividade

Nada disso significa que deixaremos de ter opiniões próprias ou que a opinião do coletivo nos será imposta. Este é outro pensamento derivado do modelo ganha – perde.

A proposta é mais ousada e madura e atende ao modelo ganha – ganha: trata-se de uma construção coletiva.

Se formos capazes de emitir nossas opiniões e ouvir as opiniões alheias sem apego apaixonado aos nossos paradigmas, sem julgamentos, apenas observando o quadro de pressupostos que sustenta o processo mental individual e coletivo que cria a situação problema, poderemos utilizar melhor a energia antes desperdiçada em manifestações de medo e de raiva e aplicá-la para encontrar soluções criativas, imersos em uma espécie de consciência comum em busca do bem comum.

Criaremos espaço e oportunidade para que surjam alternativas – nem sempre a nossa, nem sempre a deles – às vezes uma terceira via, quem sabe até melhor do que havíamos podido imaginar enquanto nos mantivemos inflexíveis quanto aos nossos paradigmas.

Tal postura faz-se urgente no mercado, nas empresas, entre as nações, no seio das famílias, na sociedade como um todo.

Não será fácil nem rápido, mas basta olhar ao redor para perceber que precisamos tentar urgentemente.

Só então estaremos prontos para, enfim, tentar responder à pergunta que vale nosso futuro:

O que de fato queremos criar juntos?