“Em tempos de mudança, os aprendizes herdarão a terra, enquanto aqueles apegados às suas velhas certezas se descobrirão perfeitamente equipados para lidar com um mundo que já não existe.”  (Eric Hoffer)

 

Você já parou para observar como pessoas diferentes são capazes de ver e interpretar um mesmo fato de formas variadas e até mesmo opostas?

O mundo é mental.  Cada um de nós constrói a sua versão da realidade, por mais que nos apeguemos às nossas certezas.

Para começar, nossa atenção é seletiva e, assim como os algoritmos do Facebook, ela elege algumas coisas para focar e descarta outras do universo que nos rodeia.

Experimente caminhar pelo centro antigo da cidade com um empreendedor e uma arquiteta, por exemplo. O primeiro vai perceber as lojas fechadas por causa crise, observar o público nos restaurantes abertos e quem sabe até identificar uma oportunidade de negócio. A segunda vai comentar sobre os estilos arquitetônicos dos edifícios históricos, citar a beleza de algumas construções, e perceber aspectos totalmente diversos dos demais caminhantes. E você, se for uma pessoa dedicada a projetos sociais, talvez apenas observe os moradores de rua vivendo em condições desumanas.

Mesmo partindo de um mesmo ponto – fatos concretos e observáveis – o que acontece a seguir é fortemente determinado pelo nosso mundo interior, onde moram nossos paradigmas, nossos modelos mentais, nossas crenças e valores.

Eu observo ou escuto algo. Porém, quase sempre as informações são incompletas, oferecendo apenas uma visão parcial dos fatos. É aí que entra um ingrediente potencialmente perigoso: as inferências. Começo a completar por conta próprias as peças que faltam neste quebra-cabeça. E como faço isso? Supondo o que está acontecendo, ou o que aconteceu. E passo a preencher os vazios com o meu material mental, já citado acima, calcado em minhas experiências, com aquilo que o meu cérebro considera ser a verdade.

Vi, inferi, e agora passo a interpretar os fatos. Certo? Errado! Eu agora passo a interpretar a minha versão dos fatos, embora eu geralmente não me dê conta de que é apenas a minha versão.

Baseado, então, em minhas crenças e valores, faço meus julgamentos, emito minha opinião, e, se for o caso, executo uma ação, adoto uma postura, realizo uma intervenção, tomando decisões que podem afetar experiências pessoais, outras pessoas, grupos, empresas…

Como este processo mental esteve o tempo todo subordinado aos meus filtros pessoais, há um grande risco de equívocos.

E o mesmo acontece com cada pessoa. Apegando-nos às nossas versões como se fossem verdades absolutas, tornamos a nossa vida, as nossas relações e a nossa sociedade reféns de nossas certezas, o que nos impede de alcançar uma visão mais ampla e abrangente.

E como seria possível? Estou dizendo que não deveríamos ter convicções?

Não. O problema não é termos nossas convicções. O problema é não termos consciência de como se processa nossa visão de mundo. O problema é não termos consciência da visão de mundo dos outros. O problema é nem admitirmos que alguém possa ter visão de mundo diferente da nossa. O problema é adotarmos a postura engessada da certeza absoluta, como quem sabe tudo, arrogantes e presunçosos.

O problema é nossa falta de humildade. É esquecermos de que somos todos aprendizes e sufocarmos a boa curiosidade, que se abre ao diálogo, que deseja conhecer o ponto de vista alheio para sinceramente tentar compreender sua forma de ver as coisas e entender seu processo mental.

Não é sem motivo que os estudos sobre Inteligência Emocional, Inteligência Espiritual, Comunicação Não Violenta e matérias afins tem ganhado tanto espaço dentro das empresas e organizações de orientações diversas.

Precisamos romper o círculo vicioso que alimenta a intolerância, o preconceito e a desunião.

Só assim haverá esperança de um dia sermos realmente capazes de manter relacionamentos saudáveis e maduros, de encontrarmos soluções pacíficas para os pequenos desencontros do nosso cotidiano comum ou para os grandes conflitos históricos da humanidade.

 

Faz sentido pra você?