Talvez inspirado por uma espécie de sentimento de gratidão à minha mãe, o fato é que há muito tempo me encanto com esta dimensão do amor e do relacionamento humano: o amor materno.

Não falo apenas do que observo nas relações em meu universo familiar e entre amigos, que por si só já seriam fascinantes exemplos de renúncia e de amorosidade.

Atuando como educador voluntário, convivi com mães de crianças das mais diversas condições sociais, culturais e psicológicas, mães que suplicavam com os olhos e as palavras, rogando por uma oportunidade para seus filhos.

Como pai ou como fotógrafo, frequentei inúmeros eventos comemorativos, reuniões escolares, espetáculos de dança, em quadras esportivas, pátios, anfiteatros, bem como um número sem conta de festas infantis, conversando, observando e me emocionando com a emoção das mães, para quem o menor passo é sempre um grande passo e todo progresso é intensamente celebrado. A troca de olhares entre mãe e filha, a criança pedindo colo, o aceno do palco, o abraço ao final, o aconchego nos momentos de frustração – elas e sempre elas fazendo das tripas coração para dizer eu acredito em você, você vai conseguir, você é maravilhoso, eu te amo, conte comigo, eu estou aqui.

E como gestor em uma grande instituição financeira, quantas mulheres eu vi tornarem-se mães, operando profundas transformações em sua vida, desdobrando-se entre a carreira e a maternidade para oferecer seu melhor à criança que chegaria, muitas vezes sem o apoio nem a presença do pai. Mulheres cuja vida passou a dividir-se entre antes e depois da maternidade, o que invariavelmente significava crescimento e evolução.

E o que todas tinham em comum? O amor incondicional.

Amor incondicional que acolhe sem julgamento, que identifica talentos ocultos, que acredita no desenvolvimento do potencial humano, que investe no vir a ser, que ensina limites, que cria ambientes que propiciam aprendizagem e condições favoráveis ao desenvolvimento da criança.

Amor que vai apresentando o mundo em pequenas doses e se faz presente dedicando-se à arte de estar com para que a criança desenvolva a capacidade de estar só, confiante e segura, na dinâmica proposta pelo pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott.

Amor que se faz espelho, em que a criança, pelo rosto da mãe, se vê como é vista por ela – amada e aceita como é.

Dar uma chance ao Amor

Num mundo marcado pela intolerância e pela competição, temos muito o que aprender com este modelo de Amor.

Abrir a mente e o coração. Oferecer mais acolhimento de forma intencional, sem julgar – acolhimento atento, curioso, aberto, gentil e verdadeiramente interessado no outro.

Exercitar a escuta empática, procurar ver o melhor no outro, dar uma chance à convivência sadia, onde a aproximação de alma desarmada opera magias.

Como no filme Malévola, uma versão moderna de A Bela Adormecida, que os estúdios Disney lançaram no cinema em 2014.

Movida por um intenso ódio ao rei e pelo desejo de vingança, Malévola lançou um feitiço sobre a recém nascida princesa Aurora, que ninguém, nem mesmo ela, poderia desfazer: aos dezesseis anos, a jovem furaria o dedo na agulha de uma roca e cairia em sono profundo, despertando apenas em uma condição – se recebesse um beijo de amor verdadeiro.

A menina foi criada como se fosse órfã, por três fadas desastradas, escondida na floresta, mas sempre vigiada de perto pela Malévola. Por força das circunstâncias as duas se aproximaram. Em sua inocência, a pequenina Aurora imaginava que Malévola fosse sua fada madrinha e relacionava-se afetuosamente com ela, que a viu crescer cheia de graça infantil.

Aurora tornou-se adolescente sem saber que era uma princesa e sem desconfiar que agora se tornara órfã de verdade, tendo em Malévola sua maior referência de afeto.

O dia determinado pelo feitiço chegou e tudo aconteceu como havia sido determinado. Malévola havia se afeiçoado a Aurora e até tentou desfazer o feitiço, sem sucesso. O rei reconduziu a jovem ao castelo, mas nada adiantou. Aurora caiu em sono profundo, que seria eterno, a menos que recebesse um beijo de amor verdadeiro.

Arrependida, Malévola tratou de chamar um príncipe que um dia havia se encantado com a beleza de Aurora e o levou até o castelo para que a beijasse e assim pudesse libertá-la do feitiço.

Mas… para surpresa de todos, não funcionou. Ele mal conhecia Aurora, havia apenas se sentido atraído por sua beleza, não haviam criado laços, não havia amor suficiente naquele beijo.

Malévola percebeu que a situação era terrível. Movida pelo ódio, havia criado uma condição impossível para quebrar o feitiço, pois no fundo acreditava que o amor verdadeiro não existisse.

Agora não havia mais nada a fazer. Aurora, a quem se afeiçoara de verdade, dormiria pela eternidade. Aquele ser que havia lhe tocado o coração estava irremediavelmente impedido de viver como uma pessoa normal.

Consternada e comovida, Malévola aproximou-se da Bela Adormecida e beijou-a delicadamente, prometendo cuidar dela o resto da vida.

Naquele momento, inesperadamente, Aurora despertou.

O beijo de amor verdadeiro!

Nesta versão diferente e mais coerente com os mistérios da Vida, revelando o melhor do ser humano, o beijo de amor verdadeiro veio do apelo maternal, sentimento que nascera da convivência entre elas, capaz de vencer o ódio, romper as amarras do ressentimento e mudar a história para melhor.