Saber ler os sinais não é só coisa de Paulo Coelho (Maktub).

Todo líder, gestor e responsável pelos sistemas de segurança precisa saber interpretar corretamente os alertas que a vida dá.

Outras lições importantes extraídas do acidente com o voo 522 da Helios Airways, abordado em nossos posts anteriores (*), tem a ver com a interpretação do alarme que soaram na cabine do piloto.

Antes mesmo do primeiro alarme, no painel de monitoramento da pressurização no cockpit jazia aceso um pequeno botão com letras esverdeadas que mostrava a palavra MANUAL, indicando que a chave não estava no modo automático.

No voo realizado durante as investigações ficou demonstrado que numa manhã ensolarada a claridade que invadia a cabine com a aeronave em ângulo de subida tornava difícil a visualização deste aviso.

Desta forma, o erro iniciado pelo engenheiro que não retornou a chave para o modo automático não foi detectado no checklist da inspeção pré-voo e nem mesmo pela indicação no painel.

Mas ainda haveria outra chance de perceberem que o problema era com a pressurização.

A 10.000 pés de altitude, pouco mais de 3000 metros, soou o primeiro alarme, avisando que a aeronave não estava pressurizada.

O som deste alarme é idêntico ao do sinal sonoro que alerta para erros na configuração para decolagem e foi esta a interpretação dada pelos pilotos que conduziam o Boeing 737-300 naquele voo.

Acontece que este segundo tipo de alarme jamais soaria naquelas condições, pois ele só dispara com o avião ainda em solo…

Escaparia desta forma mais uma oportunidade de corrigirem o erro e evitarem o acidente.

A cerca de 14.000 pés de altitude, acima de 4.000 metros, portanto, ao mesmo tempo em que caíam as máscaras na cabine dos passageiros, um outro aviso iluminou-se no cockpit.

Mas praticamente ao mesmo tempo soava o segundo alarme, indicando problemas na refrigeração dos equipamentos eletrônicos, o que seria um problema secundário ante o da pressurização.

Mas foi neste problema que se fixou o comandante, que resolveu levantar para tentar desligar o circuito que ficava atrás de seu assento, tarefa que nem chegou a concluir, pois o problema real – a falta de pressurização já havia tornado o ambiente anóxico, que causou maior perturbação das ideias e depois mergulhou a tripulação e os passageiros no estado de inconsciência.

No exercício de nossas funções nós também nos baseamos em dados e informações, índices e indicadores, gráficos e planilhas que chegam a ser quase tão complexas quanto o painel de um jato moderno.

Saber interpretar estas informações é a competência básica.

Saber dar maior importância e imprimir prioridade aos “alarmes” que indicam maior urgência (ou até mesmo emergência) pode ser vital durante as crises.

E saber correlacionar informações, sinais, alertas e alarmes disparados pelo mercado, por nossos pares, por nossos colaboradores, pelos sistemas de segurança ou pelos indicadores gerenciais é o refinamento desta competência, que exige visão sistêmica, maturidade, sensibilidade, experiência prática e, quase sempre, muitas “horas de voo”.

O grande engano costuma ser a pretensão de ter esta capacidade isoladamente.

O grande segredo é saber atuar em equipe, conciliando as diversas competências e talentos, ampliando a mente para o que é novo, abrindo o coração para sentir o campo e chegar ao entendimento mais completo e profundo das situações que nos desafiam constantemente, muitas das quais não fomos preparados para enfrentar.

Sem humildade para saber que não se sabe tudo e sem treinamento para desenvolver a capacidade de respostas rápidas, corremos perigo.

A Boeing também foi notificada a rever seu manual de treinamento para pilotos, principalmente quanto ao funcionamento dos vários alarmes e avisos no cockpit.

Infelizmente, além dos problemas com o idioma, o copiloto tinha pouca experiência e o treinamento desta pequena companhia aérea que possuía apenas 3 aeronaves mostrou-se ineficaz.

E mais: a Helios não soube dar a devida importância a ocorrências anteriores, como veremos em nossa próxima postagem.

Até lá e obrigado por escolher viajar conosco!

(*) Leia os artigos anteriores sobre o Voo Helios 522

O INIMIGO SILENCIOSO – parte I

O INIMIGO SILENCIOSO – parte II – Encontrando as respostas

O INIMIGO SILENCIOSO – parte III – Quando os gestores não falam a mesma língua