Finalizamos esta série de postagens sobre o histórico “pouso” de emergência de um A320 da US Airways sobre as águas do Rio Hudson, em janeiro de 2009, reforçando os princípios da cultura da segurança do trabalho.

No caso em estudo, o conjunto de competências de todos os envolvidos evitou a morte de 150 passageiros e 5 tripulantes na aeronave, impediu que pessoas e construções fossem tragicamente atingidas em solo, evitou o gasto de milhões com indenizações de maior vulto, e preservou a boa imagem institucional da empresa aérea, da construtora do avião e dos controladores de tráfego, entre outros – comprovando que investir na segurança do trabalho é uma das mais importantes aplicações que uma empresa pode fazer.

Tais competência foram tão valorizadas que o Boeing A320 que amerissou no leito do Hudson foi posteriormente comprado pelo Museu da Aviação da Carolina do Norte.

Lá ele encontra-se exposto como foi retirado do rio, mantendo-se as avarias sofridas como forma de celebrar a capacitação da tripulação, os benefícios do CRM (Crew Resource Management – já tradado em um post anterior), a eficiência do controle de tráfego aéreo e o fantástico aparelhamento tecnológico do A320, que representa o extraordinário avanço da aviação pela segurança dos milhares de voos que acontecem diariamente pelo planeta.

imagem Wikimedia/RadioFun/Carolina”s Aviation Museum

A cultura da segurança é construção, é processo, leva tempo e precisa ser interiorizada, envolvendo a todos: operadores, administrativo, técnicos, gestores, diretores, acionistas, parceiros e a comunidade do entorno.

Há momento em que o que conta é o CHA – conhecimento, habilidade e atitude e quanto maior o grau de criticidade de uma função, maior deve ser o cuidado com as competências e o perfil do empregado responsável. É crucial saber selecionar e treinar este empregado, pois não há espaço para “favores” e “jeitinhos”.

Treinamento é fundamental para que as providências estejam internalizadas e sejam facilmente acessadas nos arquivos mentais dos envolvidos nas emergências.

As famosas e nem sempre bem vistas simulações são importantes para que cada um saiba exatamente como agir quando um sinistro acontece. Não podem ser vistas como perda de tempo – são investimento, como todas as rotinas de prevenção.

A gestão do conhecimento e as atividades que propiciam maior integração e confiança entre os colaboradores são determinantes para que haja confiança mútua justamente no momento em que, de forma tão aguda e dramática, suas vidas passam a depender umas das outras.

É preciso que existam manuais de referência rápida específicos para cada situação.

Todos precisam saber como e onde acessar os manuais de referência rápida.

É imperioso que hajam cópias físicas disponíveis para o caso de indisponibilidade dos sistemas informatizados ou inexistência de energia elétrica, por exemplo.

Não por acaso, apesar de toda tecnologia disponível nas aeronaves, a tripulação conta com guias, mapas e checklists impressos.

Após um sinistro, seja qual for o cargo ou a patente do suposto responsável, seja em que departamento for, não importa quem possa ter contribuído, as investigações devem perseguir objetivamente a identificação das causas para que seja possível corrigir procedimentos, ajustar equipamentos e sistemas e impedir que volte a acontecer.

Mesmo nos casos exitosos é provável que haja procedimentos que podem ser melhorados.

No exemplo que estamos estudando, assim que o avião “pousou” nas águas geladas no Hudson, enquanto o comandante se dirigiu à cabine de passageiros para prestar o primeiro atendimento e ajudar as comissárias a orientar os passageiros, o copiloto permaneceu alguns segundos na cabine de comando para verificar o checklist de evacuação.

Mesmo com todos estes cuidados, consta que um dos passageiros em pânico abriu uma das portas traseiras, o que fez com que entrasse mais água no avião do que se tivessem aberto apenas as portas dianteiras e sobre as asas, considerando a posição em que estava a aeronave.

E também foi constatado posteriormente, sem desmerecer o feito heroico dos pilotos, que eles deveriam ter acionado um mecanismo que mantém certas válvulas e saídas fechadas, o que minimizaria a entrada de água numa amaragem (pouso feito numa superfície líquida) por avião projetado para pouso em solo.

Tal procedimento não foi adotado, provavelmente por ser um dos itens finais do checklist do manual de referência rápida que o copiloto não teve tempo de ler até o fim.

São itens, portanto, que precisam ser revistos, ainda que o resultado final tenha sido favorável, pois, se neste caso não foram determinantes, em outras ocorrências podem se tornar vitais.

Enfim, os empresários e empregados precisam conversar abertamente sobre segurança, praticar segurança, construir cotidiana e incansavelmente a cultura da segurança.

Dependendo do porte e da atividade da empresa, a comunidade local também precisa ser inserida neste diálogo para saber como proceder se as coisas saírem do controle.

Tivemos recentemente na cidade de Cubatão (SP) um grande incêndio em tanques imensos de uma indústria química que afetou a vida dos moradores do entorno. (*)

Este é um exemplo em que a comunidade e as autoridades locais, brigadas de incêndio, corpo de bombeiros, empresas vizinhas e defesa civil precisam estar afinados quanto ao que se espera de cada um.

Pratique segurança. Cultive segurança. E obrigado por escolher Cabine de Comando.

Posts anteriores desta série:

FINAL FELIZ – (1ª parte) – Sorte ou Competência?

FINAL FELIZ (2ª parte) – Conhecimento, Habilidade, Atitude e Entrega – CHAE

( * ) Quando escrevemos este texto ainda não havia ocorrida a horrível tragédia em Mariana (MG), onde o rompimento de uma barragem com resíduos de uma mineradora resultou numa espécie de tsunami de lama quimicamente contaminada, que ceifou vidas – pessoas, fauna e flora, destruiu vilarejos, contaminou rios e ainda está causando outros terríveis desdobramentos com reflexos ecológicos, sociais, econômicos, políticos, sem precedentes em nosso país.