Neste post vamos analisar mais detalhadamente os fatores que, conjugados, tornaram bem-sucedido e ousado “pouso” de um Airbus A320, de 68 toneladas, no leito do Rio Hudson, em 15 de janeiro de 2009, em que todos sobreviveram, conforme vimos em nossa postagem anterior.

Como temos ressaltado, trata-se da combinação de aspectos de gestão, liderança e cultura de segurança do trabalho, de cuja análise podemos extrair lições e material para reflexão sobre a mesma dinâmica em nossas empresas.

Habilidade e Atitude

A situação exigia capacidade de análise rápida, conhecimento do equipamento, autocontrole, foco extremo e preparo para tomar decisões crucialmente importantes em segundos.

O comandante Sullenberger, 57 anos, era ex-piloto de caça de caça das forças armadas e piloto de planadores, além de ser especialista em segurança.

Todas estas competências foram determinantes para que ele conseguisse agir com frieza e precisão técnica.

Ele manteve diálogo claro e objetivo com o Controle de Tráfego Aéreo.

Foi preciso chegar à velocidade ideal, a menor possível, sem entrar em estol (perda de sustentação).

Era vital manter as asas alinhadas, pois se uma delas tocasse a água antes da outra o avião viraria e provavelmente se despedaçaria, como em ocorrências anteriores.

Era fundamental manter o nariz levemente levantado para que o avião tocasse o leito do rio primeiro com a cauda, reduzindo a velocidade a ponto de suportar o impacto ao mergulhar a parte dianteira.

Não estivesse Sully no comando e a história poderia ter tido outro final.

Treinamento

Aquele era o primeiro dia de voo do copiloto Jeffrey Skiles, de 49 anos, que recém terminara seu treinamento em Airbus A320.

Embora com menos experiência, o treinamento o havia capacitado para saber exatamente como agir numa emergência, consultando os manuais e check lists de referência e mantendo-se seguro quanto aos procedimentos, oferecendo suporte consistente ao comandante.

Não fosse o treinamento recém aplicado a Skiler e talvez sua pouca experiência com o A320 pudesse ter prejudicado seu desempenho e impedido que as providências tomadas em profunda sinergia tivessem ocorrido com tamanha precisão.

 

Gestão do Conhecimento e Delegação Responsável

Era prática da empresa que comandante e copiloto se alternassem no comando da aeronave. Por este motivo, naquele voo 1549 era Skiles que estava no comando.

Treze segundos após o choque com as aves, Sully “puxou” para si a maior responsabilidade e reassume o comando do A320, provavelmente por conta da sua maior experiência, e a partir dali cada um deles desempenhou com extremo profissionalismo suas responsabilidades individuais, mantendo a sintonia e a sinergia que faria deles heróis nacionais em alguns segundos.

Esta dinâmica de alternância de comando foi realizada com dignidade e naturalidade. E foi possível ouvir pelo gravador de voz quando o comandante, já se preparando para a amaragem, pergunta ao copiloto se ele tem alguma sugestão, demonstrando respeito e consideração pelo colega.

Equipamento e Tecnologia de Ponta

O Airbus A320 possui sistemas moderníssimos de segurança e navegação, entre eles um cérebro eletrônico capaz de amenizar o efeito de movimentos inapropriados eventualmente realizados pelos pilotos e manter o avião no chamado “envelope de voo”.

Estes sistemas foram determinantes para que o “pouso” nas águas do Hudson acontecesse em condições quase que ideais, evitando que a estrutura do avião fosse destruída ao se chocar com a água.

E neste particular aconteceu a mágica união da tecnologia com a competência do homem que comandava o avião.

Na verdade, não houve tempo para que o copiloto lesse todo o Manual de Referência Rápida e pudesse orientar o comandante completamente.

O guia fora idealizado para ser consultado numa ocorrência a 20 mil pés de altitude, quando os pilotos teriam tempo para ler todos os itens antes de se aproximar demais do solo – só que o choque com as aves se deu a apenas 3 mil pés!

Mesmo assim, Sully teve presença de espírito para colocar em operação o APU (gerador de emergência), que permitiu que os sistemas continuassem ativos mesmo após a perda dos motores, sem os quais deixa de ser gerada energia para aqueles sistemas que, não fosse o APU, restariam inativos, e inúteis.

A partir daí a habilidade da tripulação se uniu à assistência do computador da aeronave para salvar a vida de 155 pessoas.

foto Wikimedia comuns / Eddie Maloney

Outros fatores foram importantes para que todos sobrevivessem.

Os passageiros reagiram de forma a contribuir para a rápida evacuação da aeronave e várias embarcações comerciais, da guarda costeira e dos bombeiros prontamente fizeram o resgate, retirando-os das águas super geladas e de cima das asas do avião, onde a maioria permaneceu.

Embora entrasse um volume considerável de água na aeronave, ela não chegou a submergir totalmente.

Há quem diga que o fator sorte também esteve presente, pois as águas do Hudson estavam especialmente calmas naquela tarde.

O acidente com o voo 1549 da US Airways exigiu muita lisura e profissionalismo também dos investigadores, pois todos encaravam os pilotos como heróis, no entanto, era preciso investigar com isenção para saber se eles de fato haviam adotado os procedimentos corretos e tomado as melhores decisões – o que felizmente se confirmou.

Até o nosso próximo post e obrigado por escolher viajar conosco!