Segundo o filósofo Sêneca, um dos mais célebres intelectuais do Império Romano, sorte é o que acontece quando a capacidade se encontra com a oportunidade.

Em outras palavras, as coisas acontecem, você havia se preparado para enfrentá-las e acaba se dando bem.

Assim como vivemos dizendo que os acidentes são sempre a soma de várias pequenas falhas ou inobservâncias de procedimentos de segurança que se conjugam e terminam em desastre, a conservação da vida, da saúde e do estado de segurança também se faz, da mesma forma, por um conjunto de fatores que permitem a manutenção da ordem e do equilíbrio.

E foi exatamente esta convergência de fatores positivos que possibilitou um final feliz para o acidente com o voo 1549 da US Airways, que realizou um inédito e bem-sucedido pouso de emergências sobre as águas geladas do Rio Hudson, apenas 6 minutos após a decolagem, na tarde do dia 15 de janeiro de 2009.

imagem Wikimedia Commons / Makaristos

O Airbus A320 decolou do aeroporto de La Guardia, em Nova Iorque, para um voo curto com destino a Charlotte, na Carolina do Norte, por volta das 15h25min, levando 150 passageiros e 5 tripulantes.

A mesma aeronave havia cumprido o trajeto inverso hora antes, com a mesma tripulação, conduzida pelo comandante Chesley Sullenberger (Sully), que nesta segunda viagem passou o comando ao copiloto Jeffrey Skiles.

Dois minutos após a decolagem eles colidiram com uma revoada de gansos canadenses de grande porte. Algumas aves foram sugadas pelas turbinas do jato, que foram gravemente danificadas, perdendo praticamente toda a sua potência.

O comandante Sully reassumiu o comando da aeronave enquanto Skiles tentava reiniciar os motores, sem sucesso.

A tripulação comunicou ao Controle de Tráfego Aéreo o que havia acontecido, preparando-se para retornar ao La Guardia. Logo perceberiam, no entanto, que não teriam condições de voltar ao aeroporto de origem e nem chegar a nenhum outro.

A cada segundo, com a aeronave perdendo altitude velozmente, a situação tornava-se progressivamente mais crítica e era necessário agir rapidamente.

Após avaliar todas as possibilidades, analisando as informações recebidas pelo controlador de tráfego aéreo e considerando a drástica perda de desempenho da aeronave, Sully decidiu fazer um “pouso” de emergência (amaragem) no leito do Rio Hudson.

Naquela tarde ele entrou para a história como herói por ter salvo a vida de todos os que estavam a bordo.

imagem Chris Gardner, USACE New York District Public Affairs [Public domain], via Wikimedia Commons

Dito assim parece simples, mas na verdade as possibilidades de insucesso eram imensas e será preciso estudar este caso mais a fundo para compreender a complexa rede de fatores que contribuíram para o bom resultado, contrariando as funestas probabilidades.

Uma falha na comunicação, uma informação imprecisa, alguns segundos a mais para tomar a decisão, uma mínima alteração no nivelamento das asas, uma pequena variação na velocidade, qualquer detalhe poderia ter levado ao desastre fatal.

Fizeram parte deste intricado jogo de acertos a habilidade e a experiência do comandante, o treinamento eficiente recebido pelo copiloto, a sinergia entre os dois, a eficiente gestão do conhecimento, as informações rápidas e precisas fornecidas pelo Controle de Tráfego Aéreo, a excelência técnica do equipamento – o Airbus A320-214, e fatores externos como as condições meteorológicas e o estado das águas do Hudson no momento do impacto.

Se podemos dizer que eles contaram com alguma “sorte”, ela seria insuficiente para levar ao resultado positivo se não houvesse a conjunção dos fatores acima listados.

Fatores que podem e devem estar presentes também em nossas empresas.

São preciosas lições que podem nos ajudar a refletir sobre os procedimentos e a cultura de segurança em nossas organizações e que analisaremos mais detalhadamente na próxima postagem.

Então, até lá e obrigado por escolher viajar conosco!