(alerta de spoiler: se você ainda não viu o filme O VOO (The Fly), avalie se deseja mesmo ler este artigo agora, ou só depois de assisti-lo)

 

Fui imediatamente atraído pelo inusitado da cena: um avião de passageiros voando de cabeça para baixo pouco antes de realizar um pouso forçado num campo aberto, nos arredores de Atlanta, EUA.

Mas o filme O Voo (Flight), estrelado por Denzel Washington, trazia bem mais do que efeitos especiais e cenas de forte impacto visual.

Mais do que questões técnicas de aeronáutica, algumas até contestadas pelos especialistas, a película aborda questões éticas com profundas implicações.

Afinal: se o resultado foi bom, importa a maneira como foi alcançado?

Certa vez, um dos diretores na nossa área, no banco onde trabalhei, marcou época pela forma aberta como se dirigia a todos nós, mesmo à distância, seja por seus e-mails informais e realmente motivadores, seja pela forma como se colocava à nossa disposição para ouvir ideias, críticas e sugestões.

Talvez por isso, era muito respeitado pelos empregados espalhados pelo Brasil, aos quais enviou uma espécie de código de ética para ser afixado em lugar visível e onde constava uma frase que passou a ser o nosso mantra: “se não puder dizer como fez, então não faça”, certamente inspirada no filósofo alemão Immanuel Kant.

Comandando o voo SouthJet 227, já em fase de descida, o piloto Whip Withaker assume o controle da aeronave que subitamente apresentou sérios problemas mecânicos, evitando sua queda iminente de forma espetacular e com danos mínimos, salvando a vida de 98 das 102 pessoas a bordo.

A façanha o alçaria ao status de herói, mas somente por um breve tempo…

imagem: www.nomoreworkhorse.com

Um acidente aéreo afeta drasticamente a vida e os interesses dos envolvidos, incluindo passageiros e seus parentes, tripulação, controladores de voo, a empresa aérea, o fabricante da aeronave, os diversos acionistas, os fornecedores de seus componentes, os instrutores de voo, as empresas de seguro, entre outros – e por isso as investigações são absolutamente rigorosas, haja vista o impacto financeiro e institucional que ameaça os responsáveis.

Apesar da forma genial como conseguiu evitar um desastre maior, os exames toxicológicos logo denunciariam que o comandante Whip estava sob o efeito de cocaína e álcool, e ainda que a investigação tenha provado a falha mecânica em uma peça do profundor (*), que deveria ter sido trocada há meses, ele passou a ser acusado de negligência criminosa, sujeito à suspensão do seu brevê de piloto e à prisão.

Os advogados da companhia aérea conseguem desqualificar tecnicamente o laudo, embora já soubessem da sua veracidade, e tentam reforçar a imagem do herói, apoiada pela constatação de que, durante as investigações, dez pilotos foram colocados no simulador de voo, submetidos às mesmas condições enfrentadas por Whip, e nenhum deles conseguiu aterrissar a aeronave ou evitar a destruição total da mesma.

Apelavam, portanto, para a chamada ética de conduta baseada em resultados. Ou seja, o que importava era o fato de que a genial intervenção do comandante evitou a morte de dezenas de pessoas, em terra e na aeronave, enquanto os órgãos de investigação fundamentavam seus argumentos na ética de conduta baseada em princípios, ou seja, na quebra de um código construído sobre princípios que proibiam, entre outras coisas, que os pilotos atuassem sob o efeito de drogas e álcool.

Quantas situações assim encontramos no universo corporativo? Quantos resultados são obtidos por meios nem sempre éticos e até mesmo inconfessáveis?

Como inconfessável seria mantida a real situação do personagem de Denzel Washington, não fosse por um último detalhe.

imagem: www.theguardian.com

Havia provas incontestáveis do uso de bebida alcoólica por um dos cinco tripulantes durante o voo e somente dois apresentaram álcool no sague: o comandante e a comissária de bordo Katerina Marquez, com quem ele mantinha uma relação afetiva, e que morreu no momento do impacto da aeronave com o solo.

Desta forma, tendo sido desqualificado o laudo referente a Withaker, ele só precisaria incriminar Katerina, que inclusive já possuía em seu histórico dois tratamentos contra o alcoolismo, acusando-a de haver bebido durante o voo, para livrar-se por completo do processo.

Mas é nesta hora que a consciência de Whip fala mais alto e num daqueles momentos em que a verdade avassaladora consegue vencer o autoengano, ele deixa-se conduzir pela ética da relação com a colega a quem se afeiçoava, ética que o impede de trair a imagem e a memória da comissária morta, negando-se a utilizá-la como forma de safar-se da justiça e, finalmente, confessando-se dependente químico e assumindo perante as autoridades aeronáuticas que há muito tempo vinha pilotando sob o efeito de drogas.

O lado pragmático desta história é que todos os que deram causa direta ou indireta ao acidente tiveram de acertar-se com a justiça, com o mercado e com os parentes das vítimas.

Seu lado mais sutil nos leva a refletir sobre pelo menos três aspectos muito importantes:

1) Você, gestor, tem conhecimento de quais são os princípios que norteiam sua empresa, quais são seus valores e seus códigos de ética? Seus colaboradores estão cientes destes princípios? Participaram da sua construção ou, pelo menos, foram estimulados a dialogar sobre eles? Está claro para o seu time que resultados estão buscando, quais as condutas esperadas para obtê-los e como se pautarão seus relacionamentos internos e externos?

2) As pessoas também possuem seus princípios. É da cultura da sua organização criar espaços de diálogo onde empresa e empregado possam expor seus princípios e as expectativas deles decorrentes, reforçando aqueles que já se encontram alinhados e estabelecendo acordos que definam os limites e as consequências para quando não houver alinhamento, favorecendo maior engajamento e parâmetros transparentes para todos?

3) Ficou evidente que o piloto Whip Whitaker há muito precisava de ajuda. Sua empresa possui mecanismos e políticas internas para dialogar com seus empregados e senti-los como seres humanos e não apenas pelos resultados que apresentam? Tem um olhar holístico sobre os seus colaboradores? Atua na prevenção?

Pense nisso e até o próximo voo.

Obrigado por escolher viajar conosco!

(*) Profundor ou leme de profundidade é uma superfície de controle móvel horizontal existente na extremidade traseira da cauda dos aviões (também denominada de empenagem horizontal), responsável pelo movimento do avião sobre seu eixo lateral, aumentando ou diminuindo o ângulo de ataque da aeronave. Em termos simplificados, o movimento dos profundores faz com que o nariz da aeronave se direcione para baixo ou para cima.